Entrevista sobre carreira com Fabio Akita

10 Oct 2009

[ Programacao , Carreira ]

Estou postando aqui esta entrevista que realizei no meu Último semestre da faculdade e que foi um trabalho muito interessante, e que estava armazenada no meu antigo blog.

Durante meu período de faculdade, tive boas e nem tão boas experiências na área de desenvolvimento de software. Passei por experiências onde tarefas eram realizadas de qualquer maneira, sem preocupação com qualidade. Isso de alguma forma me abalou, não era possível que esta fosse a melhor maneira de se fazer software. Comecei a pesquisar alternativas para o problema, metodologias de desenvolvimento e frameworks de desenvolvimento. Eis que me deparei com o framework Ruby on Rails e, inevitavelmente, com o Fabio Akita, um dos grandes responsáveis por sua expansão no Brasil.

Este foi um trabalho para a disciplina de Orientação e Planejamento de Carreira, cujo objetivo é entrevistar um profissional da área de atuação do aluno que, de alguma forma, ele admire. Pensei em conversar com o Akita, já que compartilho muitos de seus pontos de vista em questões de desenvolvimento, gerenciamento e pessoas na área de software. Solicitei ao Akita a possibilidade de realizarmos a entrevista, e ele prontamente aceitou.

O entrevistado então é Fabio Akita, 32 anos, atualmente gerente de produtos da Locaweb, empresa de hospedagem e serviços de internet. Akita ficou conhecido na Internet por sua ativa participação na comunidade de desenvolvimento ágil, expondo valores e boas práticas de programação. É também palestrante, escreveu alguns livros de programação e escreve em seu blog http://www.akitaonrails.com, onde fala sobre o framework Ruby on Rails e sobre questões de desenvolvimento e gerenciamento de projetos de software.

Iniciei a entrevista perguntando sobre como ele se sente por ter escolhido esta área de atuação: “Foi algo bastante natural, na realidade. Eu gosto de informática em geral desde que era muito novo. Já fui programador, analista, coordenador, gerente. Eu vario bastante minha área de atuação, ainda gosto de colocar muito a mão na massa, e estou sempre pensando como posso fazer o que eu faço hoje, melhor. Então não é exatamente “uma” escolha, são “várias” escolhas feitas durante o caminho, onde vou me adaptando e me reinventando em vez de seguir uma Única carreira”.

Como você descreveria a sua profissão? “Como disse antes, atualmente sou Gerente de Produtos, tecnicamente eu seria responsável pela concepção de produtos, pelo acompanhamento da sua implementação, e tudo mais. Mas na realidade eu me atiro em outras áreas, desde metodologias, avaliação de tecnologias, um pouco de desenvolvimento, e coisas do tipo. Não consigo pensar em mim como um Única profissão, mas como várias atividades que gosto de fazer”.

Como foi o seu primeiro emprego? Ele atendeu as suas expectativas? “Meu primeiro emprego “formal” foi enquanto eu ainda estava na faculdade. Antes disso já tinha feito alguns trabalhos esporádicos como freelancer. Eu não tinha muita experiência e nem tinha ideia da dimensão do que se podia fazer. Foi numa produtora multimídia perto da USP. Lá eu fiz muitas coisas que nunca tinha feito antes. Tinha liberdade para aprender coisas que eu não sabia e me esforçava para dominar o que eles precisavam muito rápido. Meu chefe na época e a equipe em geral me davam muita liberdade e eu aprendi muito com eles, principalmente porque eles eram mais da área de criação e publicidade, coisas que não eram parte do que eu estudava. Isso me abriu muitas perspectivas e até hoje tenho influência do que aprendi naquela época, portanto, acho que superou em muito minhas expectativas em termos de aprendizado”.

Houveram mudanças de emprego? “Diversas, até perco a conta. Somente no ano 2000, se não me engano, mudei de trabalho umas 3 vezes. Estou na Locaweb há apenas um ano. Antes disso fiquei um ano trabalhando remotamente para uma consultoria americana. Antes disso, eu era consultor no mundo SAP e, como consultor, circulei por diversas empresas onde passava vários meses. Eu gosto de experimentar coisas diferentes, encarar novos desafios e tenho pavor à rotina. Sempre que eu estou aprendendo algo novo, o trabalho é proveitoso, caso contrário não vale a pena. Eu gosto de me reinventar. Eu não acredito em carreira fixa como algo estável e, principalmente, algo que eu gostaria de perseguir”.

Ao iniciar sua carreira profissional, você havia estabelecido objetivos e metas de onde gostaria de chegar? “Não, eu faço o que faço porque gosto de fazer. Quando entendi que gostava de informática, especificamente de programar, eu ainda era pré-adolescente. Não havia objetivos de longo prazo. Eu continuei gostando do que faço quando passei pela faculdade. Não tenho metas financeiras ou de carreira pré-definidas. Eu prefiro me adaptar à realidade, mas manter o valor de fazer o que gosto de fazer. Na medida do possível, felizmente, isso tem funcionado. Financeiramente falando talvez fosse até melhor ter mantido uma carreira fixa, mas em termos de satisfação pessoal, tenho pouco do que reclamar até agora”.

Você está satisfeito com o conjunto de esferas da sua vida (trabalho, pessoal, lazer)? “Sou muito workaholic, não separo muito bem trabalho de lazer. Sinceramente acho que negligencio a família mais do que deveria. Portanto, não, não estou satisfeito ainda nesse sentido. Por outro lado, como já enfatizei, isso é consequência justamente de eu estar envolvido em coisas que eu gosto de fazer mesmo fora do escritório, que é porque consumo meu tempo mais do que deveria.”.

Que períodos de sua carreira você considera que foram mais e menos proveitosos? “Provavelmente a que mais gostei foi justamente do primeiro emprego que mencionei. Não financeiramente falando, claro, mas em termos da quantidade de coisas diferentes que tive oportunidade de fazer e aprender, e as portas que se abriram que eu não esperava. O que menos gostei foram alguns períodos de tempo da minha carreira como consultor SAP (que durou uns 5 anos) onde eu definitivamente estava fazendo coisas em que não acreditava e que não gostava de fazer, mas fazia por obrigação profissional. Por isso desisti dessa área.”.

Você, agora, possui um objetivo a longo prazo? “Não, nenhum objetivo fixo, eu gosto de pensar no que faço como uma exploração, assim como explorar uma floresta, talvez como faziam os bandeirantes. Eu quero ver até onde isso pode ir. Pode parecer imprudente e aleatório, mas claro, estou atento com o que acontece no mercado. Eu tento escolher fazer as coisas que fazem sentido na realidade do mercado mas sempre na direção do valor de “fazer o que gosto”. Não tenho pretensões em ficar milionário ou coisa parecida. Se eu puder passar a vida toda trabalhando nas coisas que gosto - seja lá quais elas forem nos anos seguintes - tanto melhor”.

O que você considera como seus pontos fortes? “Acho que meu ponto mais forte é minha natureza auto-didata. Eu não espero os outros me dizerem o que eu devo saber: prefiro ir atrás primeiro, aprender sozinho e rápido. Talvez isso me permite ser flexível no que faço, sem muitas limitações do tipo “isso eu não sei fazer, passe para outro””.

E seus pontos fracos? “Justamente o fato irônico de abraçar muitas coisas ao mesmo tempo. Como muitas coisas me interessam ao mesmo tempo, talvez isso me evite terminar algumas coisas mais rápido”.

Falando do futuro, o que você pensa que acontecerá com sua carreira nos próximos dez anos? “Eu tenho um conceito muito diferente de “carreira”, eu não penso em aumento de salários, aumento de cargos, mais prestígio ou coisa parecida. A Única coisa que eu espero é que daqui dez anos eu esteja fazendo algo muito diferente do que estou fazendo agora que, por sinal, é muito diferente do que eu fazia dez anos atrás”.

Por fim, o que você aconselharia para alguém que estivesse iniciando na área de sistemas de informação? “Infelizmente, pode parecer pedante, mas a boa e velha história do faça o que gosta de fazer e você nunca vai efetivamente “trabalhar” funciona para mim. Não quer dizer que funciona para todos, mas é um valor que talvez possa ser perseguido. Em alguns momentos você vai precisar se desviar, fazer o que não gosta porque é obrigado, mas se tiver esse norte, vai se lembrar que a meta de curto prazo é voltar à rota original. Sem isso você pode se desviar tanto do caminho que vai se conformar a ela e nunca mais tentar mudar. Mas enquanto o foco for “fazer o que gosta”, nem que isso demore para acontecer, será um objetivo a ser perseguido. O mais importante é, reinvente-se quantas vezes for preciso, entendendo que mudanças são importante e, por isso, é importante se acostumar a se modificar”.

Acredito que a entrevista foi bastante proveitosa. Compartilho com a ideia de carreira flexível, de não ficar preso a um determinado contexto, acredito que esta seja a melhor forma de ficar atento ao mercado, e também de estar preparado para mudanças. Compreendo a sua opinião de não traçar objetivos fixos a longo prazo, mas eu acredito que objetivos deste tipo ajudam a você ter o seu norte.

Agradeço ao Akita por dispor seu tempo para a realização deste trabalho. Curiosamente, passamos por experiências de trabalho parecidas, onde em um momento percebia-se que o que se estava fazendo não era algo que você acreditava. Ambos rompemos este laço, e partimos para caminhos diferentes. Atualmente, passo por uma experiência de trabalho muito gratificante, onde tenho a oportunidade de aprender muito e estar trabalhando em algo que eu acredito.